Gúnass
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O disco do Renato faz-nos recordar o passado quando nós éramos crianças. Os velhos chamavam-nos somente para evitar que saíssemos a noite para brincar fora de casa. Diziam-nos para sentar no chão alinhados, uns ao lado dos outros, com as pernas estendidas. A velha movia-se à frente das crianças e cantava: kambalalo, kambalalo, yau-yau, yau-yau; tambo tambulani tambo tambo.... atambula se ngonha ngonha, ngonha ngonha ... petê nalundê nalundereró chetuwane calanda. A música chegava ao fim quando tocava na perna duma das crianças. Essa criança saía do jogo. O jogo continuava da mesma maneira, a velha ia cantando a medida que tocava na(s) perna(s) de cada uma das outras crianças, que iam saindo, até a última criança que era considerada a vencedora.

Matuaia

1 Mar 2026

À medida que fomos crescendo nós habituámo-nos, eu habituei-me a ouvir o Renato a cantar. Ele fez uma dupla com o irmão Nando, e passaram a cantar em Pemba, deram espectáculo no Cinema Pemba. Estas canções, estas quadras que havia lá na Ilha do Ibo, donde vem a nossa família, são muito ligadas também àquilo que acontecia no dia a dia, são um pouco aquilo que a gente chama de canções de maldizer, e de ironia, satíricas. Mas isto era dito de uma maneira subtil. Isto tudo faz parte da nossa cultura e portanto para mim é uma emoção grande ver agora transformado em disco. Foi também com o Renato e com os irmãos que eu comecei a ouvir a música de intervenção, naquela altura era contra o fascismo Português. Nós íamos lá para casa deles à noitinha , ouvíamos, cantávamos. Mas tinha outra componente, eram as canções em Kimwani. Renato muito obrigado por este trabalho que tu fizeste, para nos manter viva dentro de nós e para as gerações dos nossos filhos e netos esta parte tão bonita da nossa cultura, daquilo que nós vivenciámos juntos.

Biju / Ida Alvarinho

1 Mar 2026

"Vivências". Só! Nem mais, nem menos. Oiço o CD no silêncio desta madrugada. É uma viagem no tempo que termina quando findam os acordes de "Nampenda Jane". Foi uma jornada que me transportou para lugares impossíveis de esquecer: Paquite e Cumilamba, a Escadaria, o Escondidinho e Zavala, o Wimbe, a Maringanha. Engravidados por um luar como nenhum outro. E também para os cheiros, o 'choro' das rochas vergastadas pelas ondas, as areias cristalinas e algas feitas tapetes; e de caranguejos 'inteligentes'. Os amigos de então desfilam, como que num slide, sentados nos passeios e muros das ruas parcamente iluminadas. Ah! E das "Pretas Pretinhas" e "Marias Bibi Wango", pois claro (suspiro). Mas também das "Rosas sem rosa sem nada". E concluo: Os anos 70 foram seguramente os mais belos da minha vida. Da utopia sorvíamos outras futuras vivências lindas, sem nunca abstrairmo-nos da realidade posta à nossa disposição pelos Fanon e Gorki, Zappa e Baez. E pela doçura da voz do Gúnass. O "Vivências" tem esta misticidade toda. Que nos prende do princípio ao fim, acusticamente, sem artifícios como o foram as nossas vivências. Obrigado Renato.”

Edmundo Galiza Matos

1 Mar 2026

Já devia estar habituado a não sentir surpresa ou espanto com as coisas que o meu colega “André” me conta a miúde sobre a sua vida, da sua família, do seu País de nascimento, mas é na verdade o que acontece frequentemente com uma miríade de pequenas e muitas vezes não tão pequenas histórias, que despretenciosamente são libertadas a meio de conversas circunstanciais. Foi precisamente o que aconteceu no dia em que no meio de uma dessas conversas foi referido algo como: o “… disco do meu Pai”. Em conversa com qualquer outra pessoa eu pediria para que a frase fosse repetida, pois certamente não teria percebido o que foi dito, mas sendo quem era percebi imediatamente que vinha a caminho alguma história inesperada, extraordinária, fantástica até. Foi o primeiro contacto que tive com a odisseia que levou ao primeiro disco “Vivências” de Renato Zamith Carrilho, o pai do meu colega André. O meu interesse pelo “projeto” foi imediato, por variadas razões que tentarei explicar nos próximos parágrafos e que refletem a minha relação com a obra, a interpretação, o trabalho de um músico e cultura que não conheço pessoalmente, mas que de alguma forma sinto uma certa e até algo estranha proximidade. Num primeiro momento fiquei a tentar conjugar o facto de alguém que passou uma vida profissional inteira dedicada a uma profissão ditada pelo rigor frio e rígido de números financeiros a passar com grande dedicação e vigor à produção de um objeto artístico que precisaria de uma dedicação total. Seria algo que não estava a ver compatível com uma fase da vida onde normalmente se quer algum abrandar de ritmo  e finalmente ter mais tempo para desfrutar a vida. A resposta era na verdade óbvia. Dessas longas conversas com o André, percebi que na verdade a música era algo que sempre esteve de alguma forma latente no seu Pai, até na sua juventude, e que na verdade o que estava a presenciar era finalmente a oportunidade de extravasar esse lado muitas vezes preterido por outros aspetos mais urgentes da vida.  Era assim na verdade muito natural que teria de ser precisamente com essa atividade de produção de um disco que o verdadeiro desfrutar da vida teria de ser conseguido. Nesse contexto, qualquer tarefa por mais hercúlea  que pareça a quem está “de fora”, será sempre muito relativizada e minimizada pelo prazer de alguém que está finalmente a fazer o que sempre achou que tinha nascido para fazer. Espero não cometer nenhuma inconfidência, mas quando o André me confessou que o seu Pai parecia outra pessoa que ele tinha dificuldade a reconhecer, quando estava no “mundo” musical, ou n’alguma performance musical, achei que isso dizia tudo sobre a importância e impacto da música na sua pessoa. Numa segunda fase começaram as perguntas técnicas, isto é, tentei saciar a minha infindável curiosidade pelo processo, que nunca tinha tido contacto e que o artista e a sua família já tinham dado largos passos. Alguns exemplos de perguntas eram: “Mas como conseguiram um estúdio?”, “como foi o processo de registar nos serviços de streaming de música?”, “Que músicos participaram?”, etc… e foi aí que fiquei a saber as aventuras e desventuras do processo de registo na Sociedade Moçambicana de Autores, ou dos requisitos de registos dos serviços de Streaming, da relação com alguns autores de algumas musicas ou até o desafio de arranjar quem produza o disco com a qualidade profissional que era exigida. Nem consigo imaginar o trabalho e esforço que foi ultrapassar cada uma destas barreiras, mas foi fácil perceber que havia uma vontade inabalável de levar adiante o projeto e que não seria aceite outro resultado que não a sua conclusão com elevados critérios de qualidade. Em terceiro lugar estava a curiosidade por uma cultura e “vivências” que sinto muito distantes das minhas próprias, mas de alguma forma tem pontos de contactos tão fortes que não podem ser ignorados. Embora seja um País que fica na parte mais afastada de um Continente diferente do do meu próprio País, há uma história comum que conheço fragmentos por episódios contados pelo meu próprio Pai, e também uma língua comum que de alguma forma molda uma forma similar de pensar. Mesmo que não perceba as palavras e ideias que são cantadas em quase metade do disco, pois estão num dialeto que não compreendo, há qualquer coisa na música que me leva para essas paisagens, pelo menos como as imagino pois nunca tive a felicidade de as visitar. Não percebendo o significado de tais palavras tem o condão de dar fazer sobressair mais a forma. Por exemplo na música “Travessia do Ibo para Tandanhangue”, em que nem o título percebia pois só há poucos minutos é que descobri que Ibo é uma ilha (ignorância confessa), as várias silabas que são cantadas têm uma sonoridade espetacular, ao mesmo tempo alienígenas, pois não conheço o significado, mas por outro lado algo de inexplicavelmente familiar. Outro especto que também pareceu de grande relevância foi o facto do projeto ter uma componente de recuperação de musicas antigas, populares, ancestrais, de uma parte antiga e remota de Moçambique, o que trazia uma nobreza que eleva ainda mais do já extraordinário intento “de conceber um disco”. Finalmente há a última razão que tenho de confessar de algum egoísmo. É que o percurso de Renato Carrilho tem de alguma forma paralelos com o meu próprio, em que sempre tive ( e tenho ) uma paixão pela mesma forma de arte, e que de alguma forma vai sendo adiado, imagino eu, pela mesma ordem de razões que só à pouco tempo proporcionou o “Vivências” de ver a luz do dia. Na verdade quanto mais ouvia sobre este desígnio da realização de um disco, concertos e outros trabalhos, mais tomava consciência que a coragem necessária para meter mãos à obra e perseguir o sonho era um exemplo total e absoluto de admiração pelo Renato, pela perseverança de fazer o que sentia que tinha de ser feito, um modelo a seguir, e que seria e será a minha inspiração. Só posso aspirar de alguma forma realizar uma fração do que ele conseguiu. Acabo dizendo apenas que o que acabei de escrever na verdade reflete apenas o que ouvi e absorvi do que me foi contado pelo filho André, da forma como interpretei as suas palavras, como imaginei outras que nunca foram ditas, da música do Renato Carrilho que ouvi, e de uma imagem final que foi cristalizada que tem tanto de real como certamente de imaginada sobre a pessoa em causa. Peço desculpa pela parte que não corresponder exatamente à realidade, mas como qualquer testemunho, não pretende refletir a realidade mas a forma como esta é vista do ponto de vista parcial do interlocutor.

António Palmeirinha

1 Mar 2026

“GÚNNAS E AS SUAS/NOSSAS “VIVÊNCIAS”: Por um título apenas teria adquirido o “Vivências”, o disco do Renato Zamith Carrilho – Gúnnas. Falo da canção “Travessia do Ibo Para Tandanhangue”, que me lembra uma odisseia vivida, em 1972, depois de participar das festas de São João desse ano. Mas também o teria comprado pela amizade, fidelíssima, a roçar o meio século, cuja incubação ocorreu em Pemba, era ainda, oficialmente, Porto Amélia, vivia eu no interior do hospital local, e ele em rua lateral do mesmo, num acentuado declive, lembro-me. Falámos ao telefone e de seguida fui ao encontro dele, na companhia do meu irmão, o Edmundo. Em lugar aprazível, passámos em revista o passado e as vicissitudes do presente, mas sobretudo da música, recordando e refazendo títulos e músicos que marcaram o nosso tempo, a maioria dos quais do mundo pop, mas também da nossa pacata terreola, a cidade de Pemba, por exemplo, o Zé Melquíades (desculpem-me se escrevo mal, e na certeza de que o Liberato Silva, seu irmão, condescenderá e me corrigirá), isto a propósito de um tema que o “vivências” recorda e que era do agrado daquele organista e acordeonista, se bem me recordo. E também de uma locutora que, não se importando com a baixa qualidade da captação sonora, ousou tocar algumas canções executadas e cantadas pelo Gúnnas na estação emissora local. Obviamente, sob forte cumplicidade do Edmundo e Luizinho, esses gurus da RM. Revelei ao Gúnnas e ao Edmundo que sabia de algumas façanhas anteriores, que até as passámos em revista, mas não sabia desta em particular da Glória de Sant’Anna, professora, locutora e esposa do “Narori” (como carinhosamente os macuas tratavam e ainda lembram o arquitecto Afonso Andrade Pais, provavelmente por causa do espesso pelo da barba). Enfim, adquiri alguns exemplares do disco, para mim e para os amigos, particularmente para os da diáspora, e andei a escutar o meu ao longo destes dias. E qual é a marca das minhas impressões? Como disse, conheço o Gúnass há muitos anos, assim como as “vivências” musicais que o marcaram. São muitas, mas desta vez, e certamente para separar as águas, ele quis começar pelas suas raízes, o Ibo e Pemba, não deixando de espreitar realidades musicais que ninguém duvida terem também um pouco a ver connosco. Pois é assim que eu sinto o disco do Gúnass, feito de música com fundo “tufo” e “taarabi”, sendo claramente perceptível isso nas três primeiras composições, um fundo da balada brasileira ao jeito do “Quinteto Violado” no que lhes segue, sem esquecer aquilo a que os swahili chamam de “zilizopendwa” (os maiores sucessos ou greatest hits) do seu e do nosso tempo: Maria Bibi Uangu e Nampenda Jeny, este de Isaiah Mwinamu. Do acompanhamento, uma surpresa agradável chamada Maria do Carmo (Carminha), com uma voz sensacional, ao nível dos melhores. Mas também uma surpresa a acompanhar o disco: o encarte. Bem concebido e com prosa de apresentação da obra de um verdadeiro mestre, pecando apenas por não registar quem a escreveu, embora, pessoalmente, desconfie. Só que isso fica para mim. Parabéns, Gúnnas!

Luis Loforte

1 Mar 2026

O Renato Carrilho está a acarinhar-nos com essas canções que marcam a nossa vida mas está a fazer algo mais precioso, ao deixar registado uma parte do nosso património cultural

Majoca / Manuel Alvarinho

1 Mar 2026

O Renato concorreu com o irmão Nando com a canção “ Maria Bibiuango” e ganharam um prémio. Ele sempre gostou de música, canções em Swahili e, às vezes, cantava música dos Beatles, a canção que ele mais gostava era o “Let it be”. Em 74/75, ingressou na Organização da Juventude Moçambicana (OJM) onde foi Secretário Provincial da Juventude de Cabo Delgado e também foi director da Rádio Moçambique de Cabo Delgado. Em Maputo trabalhou na Televisão de Moçambique. Há 2 anos o Renato lançou um disco que vinham canções em Kimwani e algumas baladas. Neste novo DVD/ CD”Wimbi” há quatro tipos de canções: canções satíricas, canções de amor cantadas de mulheres para homens, canções de maldizer e canções que ele compôs, uma delas dedicada a um amigo. O Renato apostou em algo que acho que é muito importante que é resgatar a cultura Mwani, a cultura do Norte, os nossos hábitos, as nossas danças, as nossas canções, as tradições, que vão-se apagando com o tempo. Temos que ter um acervo cultural e, sempre que podermos, transmitirmos aos mais novos que temos um passado e que esse passado poder ser aproveitado.

Abdala Mussa

1 Mar 2026