Testemunhos
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Já devia estar habituado a não sentir surpresa ou espanto com as coisas que o meu colega “André” me conta a miúde sobre a sua vida, da sua família, do seu País de nascimento, mas é na verdade o que acontece frequentemente com uma miríade de pequenas e muitas vezes não tão pequenas histórias, que despretenciosamente são libertadas a meio de conversas circunstanciais. Foi precisamente o que aconteceu no dia em que no meio de uma dessas conversas foi referido algo como: o “… disco do meu Pai”. Em conversa com qualquer outra pessoa eu pediria para que a frase fosse repetida, pois certamente não teria percebido o que foi dito, mas sendo quem era percebi imediatamente que vinha a caminho alguma história inesperada, extraordinária, fantástica até. Foi o primeiro contacto que tive com a odisseia que levou ao primeiro disco “Vivências” de Renato Zamith Carrilho, o pai do meu colega André.
O meu interesse pelo “projeto” foi imediato, por variadas razões que tentarei explicar nos próximos parágrafos e que refletem a minha relação com a obra, a interpretação, o trabalho de um músico e cultura que não conheço pessoalmente, mas que de alguma forma sinto uma certa e até algo estranha proximidade.
Num primeiro momento fiquei a tentar conjugar o facto de alguém que passou uma vida profissional inteira dedicada a uma profissão ditada pelo rigor frio e rígido de números financeiros a passar com grande dedicação e vigor à produção de um objeto artístico que precisaria de uma dedicação total. Seria algo que não estava a ver compatível com uma fase da vida onde normalmente se quer algum abrandar de ritmo e finalmente ter mais tempo para desfrutar a vida. A resposta era na verdade óbvia. Dessas longas conversas com o André, percebi que na verdade a música era algo que sempre esteve de alguma forma latente no seu Pai, até na sua juventude, e que na verdade o que estava a presenciar era finalmente a oportunidade de extravasar esse lado muitas vezes preterido por outros aspetos mais urgentes da vida. Era assim na verdade muito natural que teria de ser precisamente com essa atividade de produção de um disco que o verdadeiro desfrutar da vida teria de ser conseguido. Nesse contexto, qualquer tarefa por mais hercúlea que pareça a quem está “de fora”, será sempre muito relativizada e minimizada pelo prazer de alguém que está finalmente a fazer o que sempre achou que tinha nascido para fazer. Espero não cometer nenhuma inconfidência, mas quando o André me confessou que o seu Pai parecia outra pessoa que ele tinha dificuldade a reconhecer, quando estava no “mundo” musical, ou n’alguma performance musical, achei que isso dizia tudo sobre a importância e impacto da música na sua pessoa.
Numa segunda fase começaram as perguntas técnicas, isto é, tentei saciar a minha infindável curiosidade pelo processo, que nunca tinha tido contacto e que o artista e a sua família já tinham dado largos passos. Alguns exemplos de perguntas eram: “Mas como conseguiram um estúdio?”, “como foi o processo de registar nos serviços de streaming de música?”, “Que músicos participaram?”, etc… e foi aí que fiquei a saber as aventuras e desventuras do processo de registo na Sociedade Moçambicana de Autores, ou dos requisitos de registos dos serviços de Streaming, da relação com alguns autores de algumas musicas ou até o desafio de arranjar quem produza o disco com a qualidade profissional que era exigida. Nem consigo imaginar o trabalho e esforço que foi ultrapassar cada uma destas barreiras, mas foi fácil perceber que havia uma vontade inabalável de levar adiante o projeto e que não seria aceite outro resultado que não a sua conclusão com elevados critérios de qualidade.
Em terceiro lugar estava a curiosidade por uma cultura e “vivências” que sinto muito distantes das minhas próprias, mas de alguma forma tem pontos de contactos tão fortes que não podem ser ignorados. Embora seja um País que fica na parte mais afastada de um Continente diferente do do meu próprio País, há uma história comum que conheço fragmentos por episódios contados pelo meu próprio Pai, e também uma língua comum que de alguma forma molda uma forma similar de pensar. Mesmo que não perceba as palavras e ideias que são cantadas em quase metade do disco, pois estão num dialeto que não compreendo, há qualquer coisa na música que me leva para essas paisagens, pelo menos como as imagino pois nunca tive a felicidade de as visitar. Não percebendo o significado de tais palavras tem o condão de dar fazer sobressair mais a forma. Por exemplo na música “Travessia do Ibo para Tandanhangue”, em que nem o título percebia pois só há poucos minutos é que descobri que Ibo é uma ilha (ignorância confessa), as várias silabas que são cantadas têm uma sonoridade espetacular, ao mesmo tempo alienígenas, pois não conheço o significado, mas por outro lado algo de inexplicavelmente familiar. Outro especto que também pareceu de grande relevância foi o facto do projeto ter uma componente de recuperação de musicas antigas, populares, ancestrais, de uma parte antiga e remota de Moçambique, o que trazia uma nobreza que eleva ainda mais do já extraordinário intento “de conceber um disco”.
Finalmente há a última razão que tenho de confessar de algum egoísmo. É que o percurso de Renato Carrilho tem de alguma forma paralelos com o meu próprio, em que sempre tive ( e tenho ) uma paixão pela mesma forma de arte, e que de alguma forma vai sendo adiado, imagino eu, pela mesma ordem de razões que só à pouco tempo proporcionou o “Vivências” de ver a luz do dia. Na verdade quanto mais ouvia sobre este desígnio da realização de um disco, concertos e outros trabalhos, mais tomava consciência que a coragem necessária para meter mãos à obra e perseguir o sonho era um exemplo total e absoluto de admiração pelo Renato, pela perseverança de fazer o que sentia que tinha de ser feito, um modelo a seguir, e que seria e será a minha inspiração. Só posso aspirar de alguma forma realizar uma fração do que ele conseguiu.
Acabo dizendo apenas que o que acabei de escrever na verdade reflete apenas o que ouvi e absorvi do que me foi contado pelo filho André, da forma como interpretei as suas palavras, como imaginei outras que nunca foram ditas, da música do Renato Carrilho que ouvi, e de uma imagem final que foi cristalizada que tem tanto de real como certamente de imaginada sobre a pessoa em causa. Peço desculpa pela parte que não corresponder exatamente à realidade, mas como qualquer testemunho, não pretende refletir a realidade mas a forma como esta é vista do ponto de vista parcial do interlocutor.
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